Cine Reflexão: Dilema Das Redes Ou Dilema Moral?

Cine Reflexão: Dilema Das Redes Ou Dilema Moral?

O documentário “O Dilema das Redes“, que foi lançado em fevereiro de 2020, no festival de Sundance, nos Estados Unidos, virou assunto e levantou muitos debates quando entrou no catálogo da maior plataforma de streaming, sete meses depois.

Por meio de depoimentos de vários ex-executivos das maiores empresas do Vale do Silício e também de pesquisadores, o documentário descreve o vício e os impactos negativos das redes sociais sobre pessoas e comunidades como resultados de estratégias criadas para manipular emoções e comportamentos e manter usuários conectados.

Embora bastante impactante, “O Dilema das Redes” não pode ganhar o status de apontar as redes sociais como as únicas causas dos problemas da humanidade. Mas, sem dúvida, levanta vários aspectos da nossa vida contemporânea que não podemos desprezar. Não queremos aqui demonizar essas redes, pois elas também aproximam pessoas, têm um potencial gigantesco para fins educacionais e, atualmente, são também ferramentas de trabalho neste período em que vivemos sob o jugo da pandemia.

O fato é que a humanidade sofre naturalmente impactos de revoluções tecnológicas, as quais, sem exceção, tem pontos positivos e negativos, conforme a expressão da nossa vontade. Ocorre que a evolução da tecnologia que atualmente temos em mãos nos coloca exatamente naquilo que o filme traz à tona: o dilema entre ganhos e benefícios que está tão implícito e disfarçado, que tem sido cada vez mais desafiador discernir como a nossa própria vontade pode ser devidamente mobilizada para o crescimento individual.

Podemos destacar algumas ideias expostas como forma de síntese de todos os avisos por nós expostos. Duas frases são altamente impactantes:

A primeira frase revela um conjunto de estratégias e de mecanismos que buscam fixar as pessoas nas próprias redes. Elas trabalham com alguns vieses que naturalmente carregamos, sistemas heurísticos que servem para simplificar nossas decisões, para facilitar nossa vida diária, tais como:

1. Ancoragem – é um atalho mental utilizado nos momentos de tomada de decisão, segundo o qual o nosso cérebro se “ancora” em outras informações e números para julgar uma determinada situação; nos sentimos mais receptivos às influências externas contidas em nosso repertório pessoal;

2. Disponibilidade – a mente humana define a probabilidade de um evento acontecer a partir da facilidade com que se lembra de um evento similar ter acontecido no passado; as informações mais recentes e mais disponíveis influenciam na percepção dos fatos da vida;

3. Representatividade – é o nome dado a um fenômeno mental no qual, diante da necessidade de tomar uma decisão de relativa complexidade, o ser humano se apoia em seu repertório pessoal para julgar uma coisa, pessoa ou situação.

Todas essas heurísticas são fartamente utilizadas nas peças de marketing para consumo, por exemplo, explorando dimensões materiais daquilo que entendemos ser felicidade. As redes sociais exploram tais fatores com uma intensidade exponencial, fazendo-nos verdadeiros prisioneiros de percepções superficiais e da fixação temática, quase obsessiva, através de uma inteligente ferramenta: os ALGORITMOS!

Os algoritmos são fórmulas matemáticas e informacionais (segundo o dicionário Oxford, “sequência finita de regras, raciocínios ou operações que, aplicada a um número finito de dados, permite solucionar classes semelhantes de problemas”) com o propósito de mapear os interesses das pessoas, de modo a oferecer a cada uma delas mais e mais conteúdos relacionados a esses interesses, de tal modo que as opiniões que são mais compartilhadas acabam sendo as mais disponibilizadas.

Isso cria um universo de informações “individualizado” ou altamente customizado, nos fixando em conteúdos que apenas confirmam nossas opiniões, ou nos façam crer que acreditamos nelas, por meio de um loop informacional repetitivo (por exemplo, com as barras de rolagem infinitas). É o chamado “rabbit hole”, uma alusão à história de Alice no País das Maravilhas: o consumo de conteúdos comuns faz com que o algoritmo nos empurre cada vez mais para uma radicalização do conteúdo, pois ele não analisa o conteúdo no mérito, mas os padrões, e premia os canais que geram mais engajamento.

A segunda frase chama a atenção para a face materialista das redes sociais, criando a ilusão de que estamos apenas levando vantagem em usar as redes sem grandes contrapartidas financeiras. Trata-se de um grande estímulo à superexposição pessoal, que fornece todos os dados necessários para alimentar os algoritmos, e uma deturpação dos significados de “felicidade” e de autorrealização.

Dar “likes”, acumular “amigos”, “seguidores”, buscar audiência: são todos exemplos do modelo estabelecido como sinônimo de sucesso pessoal; são as chamadas “chupetas digitais”, tal como está registrado no documentário. Mas o que na verdade eles trabalham é no estímulo a recompensas imediatas, naquilo que o documentário chamou de “chupetas digitais”. Elas nada mais são do que o estímulo gigantesco à superficialidade dos relacionamentos, trabalhando no nível psíquico e fisiológico, pois tais estímulos induzem ao vício da dopamina, um neurotransmissor ligado ao prazer, à alegria e ao bem-estar.

Dito isso, como o Espiritismo dialoga com os achados do documentário? Como os ensinamentos do Cristo podem nos ajudar a visualizar os desafios atuais e a nos oferecer encaminhamentos para que a expressão da nossa vontade e do livre-arbítrio não fique aprisionada em armadilhas psicológicas e mentais?

Todos esses aspectos podem nos incentivar a refletir acerca da nossa postura de vigilância dos nossos pensamentos. Os tais algoritmos nada mais são do que a expressão da nossa sintonia espiritual refletida nas redes sociais. O algoritmo reflete e potencializa os interesses imediatos. Se eles refletem nossos desejos e interesses, e os potencializam, temos de buscar refletir qual é a natureza predominante.

A quem estamos dando mais atenção? A que desejos? Afinal, qual é a nossa sintonia?

Chegamos à conclusão que as redes atuam na forma como trabalhamos nossas afinidades morais e espirituais, e isso naturalmente está vinculado aos nossos desafios reencarnatórios, especialmente na busca em corrigir nossas imperfeições. Será que as redes sociais estão nos levando a estimular ainda mais nossas imperfeições?

Quando reencarnamos trazemos conosco, impregnados em nosso subconsciente, todos os erros e mazelas cometidas em outras épocas. Como temos o esquecimento do passado, a sua manifestação dá-se pela intuição e pelo sentimento, que podem ser acionados a qualquer momento, desde que estejamos desatentos.

No livro Fonte Viva (p. 110), Emmanuel nos aponta:

“Em nós mesmos podemos exercitar o bom ânimo e a paciência, a fé a humildade … Não te proponhas, desse modo, atravessar a mundo, sem tentações. Elas nascem contigo, assomam de ti mesmo e alimentam-se de ti, quando não as combates, dedicadamente, qual o lavrador sempre disposto a cooperar com a terra da qual precisa extrair as boas sementes. (…) Entretanto, lembremo-nos do ensinamento do Mestre, vigiando e orando, para não sucumbirmos às tentações, de vez que mais vale chorar sob os aguilhões da resistência que sorrir sob os narcóticos da queda”.

As facilidades vendidas pelas redes podem nos associar com influências espirituais que não desejam nosso progresso. Se todos os mecanismos psicológicos adotados pelas redes potencializam comportamentos viciantes, sem dúvida tais ferramentas ajudam muito as influências espirituais negativas sobre nossa vida. Muitos de nós vivemos de aparências e o exemplo digno nem sempre nos acompanha.

Por isso a vigilância. Por isso o autoconhecimento. Por isso a elaboração permanente de uma sintonia positiva e de propósitos elevados, fugindo ao orgulho e ao egoísmo. Por isso, a necessidade de estudar e de refletir permanentemente. Por isso, a busca do amor e da fraternidade como os caminhos verdadeiros da felicidade.

Para tudo isso devemos desvendar os rumos da nossa VONTADE. Vejamos um rápido trecho da palestra proferida pelo irmão Rossandro Klinjey, para termos uma boa dica sobre a construção da vontade:

Nota-se que ninguém além de nós mesmos é que será capaz de escapar de mudar essa realidade. Como construir as melhores habilidades para fugir das armadilhas das redes sociais e saber buscar nelas suas melhores potencialidades?

Que tal modularmos as nossas próprias heurísticas, programarmos nossos próprios algoritmos e sermos artífices de melhores destinos?

1. Ancoragem no Evangelho – fazer com que nossos atalhos mentais para nossa tomada de decisão sejam ancorados nas lições do Evangelho; ou seja, que possamos elaborar nosso repertório com a melhor das influências;

2. Disponibilidade do Espiritismo – recorrer com cada vez mais frequência aos ensinamentos da Doutrina, tornando-a viva, frequente e disponível em nossos pensamentos, de modo a se fazer mais presente e influenciável em nossas vidas;

3. Representatividade de Jesus e de seus mensageiros – diante da necessidade de tomar uma decisão de relativa complexidade, que nos apoiemos nos repertórios do Mestre e dos espíritos de luz para elevarmos nossa capacidade de discernir o bem o mal, de servir e de amar.

Para encerrar, uma provocação: todo o conteúdo aqui elaborado foi feito com a ajuda da internet; e todos vocês estão lendo aqui e agora também com a ajuda desse fabuloso instrumento! Portanto, não sejamos superficiais em colocar a culpa de todas as mazelas sobre a tecnologia. Vamos assumir a responsabilidade sobre nossos atos e pensamentos, recorrendo à construção da nossa inteligência espiritual e dos recursos mais edificantes da nossa VONTADE!

Então? Vocês acham que estão lidando plenamente com seu livre-arbítrio quando estão nas redes sociais?

O que achou do conteúdo? Gostaria de fazer algum comentário sobre o tema? Ficou com alguma dúvida? Deixe seu comentário!

Referências
Dicionário Oxford
Alice no País das Maravilhas – Lewis Carroll
Filme: Dilema das Redes – Netflix
Fonte Viva – Psicografado por Chico Xavier, Ditado por Emmanuel

2 Comments
  1. Não tenho a ilusão de estar de estar usando plenamente meu livre-arbítrio. Sinto ainda que estou muito propenso a ficar muito aberto meu "livre arbítrio" e as redes sociais aproveitarem isso para me fazer adquirir coisas, por exemplo, que não preciso. Não tem jeito: voltamos à origem: Vigiar a gente mesmo o tempo todo, e orar. Sem isso temos grande chance de seremos, pelas redes sociais, levados a caminhos não bons!!!

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