Desigualdade Social Na Visão Espírita

Desigualdade Social Na Visão Espírita

Nosso tema de hoje é algo que frequentemente nos toca e nos intriga, especialmente quando observamos nossa sociedade com gigantescas diferenças sociais. Muitos usufruem de conforto e muitos mais carecem do básico. E esse quadro nos faz pensar: onde estaria a Justiça de Deus? Porque ele permite isso?

Bem, nessas horas, agradecemos a Doutrina Espírita, porque nela temos condições de obter as melhores respostas para tais questionamentos.

Para tanto, hoje nossa proposta é fazer uma roda de conversa fictícia com várias referências da Doutrina. Para o início, vamos convidar o Codificador do Espiritismo, Allan Kardec, e um dos principais mentores que participaram da complementação das obras básicas, através da psicografia de Chico Xavier, Emmanuel.

Vamos às perguntas!

Pergunta 1: Kardec, porque onde podemos começar a compreender a questão da desigualdade social no nosso mundo?

Kardec: Ah, esse tema sempre me preocupou desde o momento da revelação das realidades espirituais! Tanto foi assim que, ao organizar meu trabalho para O Livro dos Espíritos, dediquei uma parte especial sobre as Leis Morais, e uma delas foi a Lei da Igualdade. Lembro-me perfeitamente da questão nº 803, em que perguntei se todos seriam iguais e a resposta dos Espíritos foi certeira:

“Sim, todos tendem para o mesmo fim e Deus fez Suas leis para todos. Dizeis frequentemente: “O Sol luz para todos” e enunciais assim uma verdade maior e mais geral do que pensais.” Todos os homens estão submetidos às mesmas leis da Natureza. Todos nascem igualmente fracos, acham-se sujeitos às mesmas dores e o corpo do rico se destrói como o do pobre. Deus a nenhum homem concedeu superioridade natural, nem pelo nascimento, nem pela morte: todos, aos Seus olhos, são iguais.

Pergunta 2: Mas vemos que muitos parecem estar em muito mais desvantagens, principalmente acerca da situação social. Deus permite isso?

Emmanuel: A concepção igualitária absoluta é um erro grave, pois o verdadeiro valor de uma pessoa está no seu íntimo, onde cada Espírito tem sua posição definida pelo próprio esforço. Então, como Kardec mesmo ressaltou na sua colocação, existe igualdade absoluta de direitos dos homens perante Deus, que concede a todos os seus filhos uma oportunidade igual nos tesouros inapreciáveis do tempo. Esses direitos são os da conquista da sabedoria e do amor, através da vida, pelo cumprimento do sagrado dever do trabalho e do esforço individual. Eis por que cada criatura terá o seu mapa de méritos nas sendas evolutivas, constituindo essa situação, nas lutas planetárias, uma grandiosa escala progressiva em matéria de raciocínios e sentimentos, em que se elevará naturalmente todo aquele que mobilizar as possibilidades concedidas à sua existência para o trabalho edificante da iluminação de si mesmo, nas sagradas expressões do esforço individual.

Kardec: Foi por isso que os Espíritos também nos indicaram que Deus criou todos iguais, mas cada um destes tem feito maior ou menor soma de aquisições, demonstrando que a diferença está na diversidade dos graus da experiência alcançada e da vontade com que obram, vontade que é o livre-arbítrio. Daí o se aperfeiçoarem uns mais rapidamente do que outros, o que lhes dá aptidões diversas. Necessária é a variedade das aptidões, a fim de que cada um possa concorrer para a execução dos desígnios da Providência. Assim é que cada qual tem seu papel útil a desempenhar.

Pergunta 3: Então, qual seria a origem da desigualdade entre os homens? Terá alguma finalidade?

Kardec: Questionei se a desigualdade das condições sociais seria uma lei da Natureza (pergunta 806), e os Espíritos foram categóricos em responder que isso era obra dos homens, jamais seria de Deus. Temos que, como criação humana, a desigualdade tem origem no orgulho e no egoísmo, observado pela ganância em possuir bens materiais, de acumular e de explorar o próximo com fins de lucrar e angariar pelo do sacrifício de outrem.

Em passagem registrada por Mateus, o Mestre Jesus já nos afirmava que é preciso que haja escândalo no mundo, disse Jesus, porque, imperfeitos como são na Terra, os homens se mostram propensos a praticar o mal, e porque, árvores más, só maus frutos dão. Deve-se, pois, entender por essas palavras que o mal é uma consequência da imperfeição dos homens, e não que haja, para estes, a obrigação de praticá-lo. Estando em expiação na Terra, os homens se punem a si mesmos pelo contato de seus vícios, cujas primeiras vítimas são eles próprios e cujos inconvenientes acabam por compreender. Desse modo, as imperfeições humanas acabam servindo de instrumento para o seu próprio aperfeiçoamento.

Mas ai daquele por quem venha o escândalo, ou seja, aquele que a seu mau grado servir de instrumento à Justiça divina, nem por isso deixou de praticar o mal e de merecer punição. Assim é, por exemplo, que um filho ingrato é uma punição ou uma prova para o pai que sofre com isso, porque esse pai talvez tenha sido também um mau filho que fez sofresse seu pai. Passa ele pela pena de talião, mas essa circunstância não pode servir de escusa ao filho que, a seu turno, terá de ser castigado em seus próprios filhos, ou de outra maneira.

Assim, riqueza e pobreza, segundo os Espíritos, ambas são provas para experimentar a humanidade de modos diferentes, e, frequentemente, essas provas são escolhidas pelos próprios Espíritos, que nelas, entretanto, sucumbem com frequência.

Assim, tanto a riqueza, quanto a pobreza, são desafiadoras, conquanto a miséria provoca as queixas contra a Providência e a riqueza incita a todos os excessos. A pobreza é, para os que a sofrem, a prova da paciência e da resignação; a riqueza é, para os outros, a prova da caridade e da abnegação.

Pergunta 4: Emmanuel, até quando essa desigualdade vai durar na Terra?

Emmanuel: Pergunta me foi feita em certa oportunidade. A desigualdade social é o mais elevado testemunho da verdade da reencarnação, mediante a qual cada Espírito tem sua posição definida de regeneração e resgate. Nesse caso, consideramos que a pobreza, a miséria, a guerra, a ignorância, como outras calamidades coletivas, são enfermidades do organismo social, devido à situação de prova da quase generalidade dos seus membros. Cessada a causa patogênica com a iluminação espiritual de todos em Jesus Cristo, a moléstia coletiva estará eliminada dos ambientes humanos.

Pergunta 5: O que devemos fazer para isso?

Kardec: Respondo com outra indagação: qual seria o remédio contra o orgulho e o egoísmo? Humildade e Caridade!

Pergunta 6: Como uma pessoa pobre pode praticar a caridade, se é ela a maior vítima da desigualdade?

Kardec: Você diz que HOJE ela é a maior vítima, exatamente pelo fato de que tudo tem uma origem, e a reencarnação explica os grandes movimentos e variações nos desafios humanos durante cada encarnação. Sobre essa pergunta, registrei comunicação do Espírito Protetor no Capítulo XIII, item 15 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, em que ele assim diz:

Meus caros amigos, todos os dias ouço entre vós dizerem: “Sou pobre, não posso fazer a caridade”, e todos os dias vejo que faltais com a indulgência aos vossos semelhantes. Nada lhes perdoais e vos arvorais em juízes muitas vezes severos, sem quererdes saber se ficaríeis satisfeitos que do mesmo modo procedessem convosco. Não é também caridade a indulgência? Vós, que apenas podeis fazer a caridade praticando a indulgência, fazei-a assim, mas fazei-a largamente.

Pergunta 7: A pessoa que detém dinheiro e recursos, qual deve ser a preocupação dela para não contribuir com a desigualdade social?

Kardec: O Espírito Cheverus, em passagem que registrei no Capítulo XVI de O Evangelho Segundo o Espiritismo, registra que o melhor emprego que se pode dar à riqueza é buscar nas palavras de Jesus o seu norte: “Amai-vos uns aos outros”. Essa é a solução para o bom emprego das riquezas. Na caridade está, para as riquezas, o emprego que mais apraz a Deus. Não nos referimos, é claro, a essa caridade fria e egoísta, que consiste em a criatura espalhar ao seu derredor o supérfluo de uma existência dourada. Referimo-nos à caridade plena de amor, que procura a desgraça e a ergue, sem a humilhar. Rico!… dá do que te sobra; faze mais: dá um pouco do que te é necessário, porquanto o de que necessitas ainda é supérfluo; mas dá com sabedoria. Alivia, primeiro; em seguida, informa-te, e vê se o trabalho, os conselhos, mesmo a afeição não serão mais eficazes do que a tua esmola. Difunde em torno de ti, como os socorros materiais, o amor de Deus, o amor do trabalho, o amor do próximo. Coloca tuas riquezas sobre uma base que nunca lhes faltará e que te trará grandes lucros: a das boas obras. A riqueza da inteligência deves utilizá-la como a do ouro. Derrama em torno de ti os tesouros da instrução; derrama sobre teus irmãos os tesouros do teu amor e eles frutificarão. Muita sabedoria isso, não é mesmo?

Pergunta 8: Porque as pessoas ainda não conseguem praticar a caridade e repartir do que tem para diminuir a desigualdade social?

Kardec: Recorro novamente a uma expressão de outra entidade, chamada “Um Espírito Amigo”, que assim nos disse:

Homens cegos e surdos, abri as vossas inteligências e os vossos corações; vede pelo vosso espírito; ouvi pela vossa alma e não interpreteis de modo tão grosseiramente injusto as palavras daquele que fez resplandecesse aos vossos olhos a Justiça do Senhor. Não é Deus quem retira daquele que pouco recebera: é o próprio Espírito que, por pródigo e descuidado, não sabe conservar o que tem e aumentar, fecundando-o, o óbolo que lhe caiu no coração.

Emmanuel: Olhos abertos à verdade, coração tocado de nova luz, à primeira dificuldade do caminho as pessoas pretendem fugir ao mundo, famintos de repouso ao lado do Nazareno, esquecendo-se de que o Mestre trabalha sem cessar. O problema do aprendiz do Cristo não é o de conquistar feriados celestes, mas de atender aos serviços ativos, a que foi convocado, em qualquer lugar, situação, idade e tempo.

Aqui e ali, empregamos expressões cronificadas que nos justifiquem a fuga, como sejam “muito difícil”, “impossível”, “melhor esperar”, “vamos ver” e ponderamos vagamente quanto aos arrependimentos que nos amarguram o coração e complicam a vida, à face de sentimentos, ideias, palavras e atos infelizes a que, em outras ocasiões, nos precipitamos de maneira impensada.

Na maioria das vezes, para o bem, exigimos o atendimento a preceitos e cálculos, enquanto que, para o mal, apenas de raro em raro, imaginamos consequências.

Pergunta 9: Como é vista a assistência social praticadas nos Centros Espíritas?

Kardec: Erasto, meu estimado mentor espiritual, indicou uma boa preliminar para essa pergunta. Segundo ele, reconhece-se no bom caminho entre os chamados para o Espiritismo aqueles que se guiam pelos princípios da verdadeira caridade que eles ensinarão e praticarão. Reconhecê-los-eis pelo número de aflitos a quem levem consolo; pelo seu amor ao próximo, pela sua abnegação, pelo seu desinteresse pessoal; e, finalmente, pelo triunfo de seus princípios, porque Deus quer o triunfo de sua lei; os que seguem sua lei, esses são os escolhidos e Ele lhes dará a vitória; mas Ele destruirá aqueles que falseiam o espírito dessa lei e fazem dela degrau para contentar sua vaidade e sua ambição.

O Centro Espírita torna-se, dessa forma, um importante vetor de concentração de esforços em favor do próximo em múltiplas dimensões e, particularmente em relação à desigualdade social material, serve tanto aos participantes como modo organizado e espiritualmente orientado para as ajudas necessárias, como veículo de sensibilização e fortalecimento dos melhores sentimentos. Ou seja, remédio valiosos contra o orgulho e o egoísmo. E, para as famílias assistidas, além dos vários confortos, materiais e emocionais, serve de oportunidade de fortalecimento para enfrentar e, por que não, superar a prova da pobreza.

***

Gostaríamos muito de agradecer aos nossos convidados por essa valiosa conversa! Que ela possa nos incentivar a continuar perseverando nesta caminhada, acreditando que cada um pode contribuir de maneira expressiva para diminuir as desigualdades sociais!

O irmão Divaldo Franco também nos traz importantes contribuições que se somam às ideias até aqui registradas. Confira no vídeo a seguir:

Síntese das ideias aqui tratadas:

  1. Deus concede a riqueza ou a miséria a determinadas criaturas para experimentá-las de modos diferentes.
  2. Tanto a prova da pobreza quanto a da riqueza são difíceis testes. Enquanto a miséria pode provocar a revolta com a Providência Divina, a riqueza incita aos excessos.
  3. Dispondo de maiores recursos e meios para fazer o Bem, o rico não o fazendo, torna se egoísta, orgulhoso e insaciável. Com a pobreza, Deus experimenta a resignação e, com a riqueza, testa o emprego que dá aos seus bens e ao seu poder. Lembrando que o conceito de riqueza diz respeito à condição de ter recursos que possam servir ao usufruto da pessoa e também ser repartido.
  4. Pelas facilidades que a riqueza e o poder proporcionam ao homem, muito espinhosa torna se esta prova, pois normalmente incita o em apegar se à matéria e o afasta da perfeição espiritual.
  5. Entre os extremos da riqueza e da miséria, a grande maioria das criaturas transita nas reencarnações terrenas em estágios intermediários, sempre com vistas ao seu progresso espiritual.
  6. Seja qual for, portanto, as nossas possibilidades materiais, saibamos usufruir corretamente os bens que o Senhor nos concede, na certeza de que a desigualdade das riquezas visa acima de tudo, ao nosso aprendizado espiritual e a exemplificação cristã. E, um dia, ela não mais existirá!
  7. Relativamente ao Centro Espírita e as atividades de assistência e de promoção sociais:
    1. São espaços de convivência que favoreçam o processo evolutivo do Espírito encarnado pelo trabalho da benevolência e da fraternidade, com vistas à transformação da sociedade pelo pleno exercício da caridade como a entendia Jesus;
    1. Proporcionam ao frequentador e ao trabalhador do Centro Espírita oportunidade de exercitar o seu aprimoramento íntimo pela vivência do Evangelho junto aos indivíduos e aos trabalhos da área de Assistência e Promoção Social Espírita;
    1. São centro de atendimento às pessoas e às famílias em vulnerabilidade e risco social, ou que, por algum modo, possam ser abrangidas pela ação comunitária desenvolvida pela instituição, conjugando-se a ajuda material, o socorro espiritual e a orientação moral-doutrinária, com vistas à sua promoção social e crescimento espiritual.

Olha que legal esse vídeo do grupo “Amigos da Luz” que, sempre de forma divertida, tratou do nosso tema:

Para finalizar, vai aí um recadinho de Joanna de Ângelis para todos nós:

Então, Jovem espírita? Você sente que está colaborando para aumentar ou para diminuir a desigualdade social? Como fazer isso nesta fase da vida? Preciso ter dinheiro para fazer caridade? Como o jovem pode colaborar para diminuir as desigualdades sociais?

Vamos conversar mais sobre esse tema na nossa próxima live de sábado às 18h no YouTube com nosso podcast! A live será no canal do Cefak no YouTube! Aguardamos você no Podlá!

O que achou do conteúdo? Gostaria de fazer algum comentário sobre o tema? Ficou com alguma dúvida? Deixe seu comentário!

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