Cultura do Cancelamento

Cultura do Cancelamento

 No mundo contemporâneo, fortemente marcado pela permanente convivência virtual e digital nas redes sociais, recentemente veio à tona um novo fenômeno: o “cancelamento”. 

Em um primeiro momento ele ganhou uma dimensão meramente ligada à própria dinâmica das redes sociais. “Cancelar” significa excluir o contato de determinada pessoa ou de grupo, deixando de existir digitalmente na nossa vida e não permitindo mais haver interação. Isso é geralmente justificado pelo fato de que a pessoa cancelada fez algo considerado errado, não tolerado pela maioria das pessoas, apresentou comentários polêmicos e chocante ou simplesmente emitiu uma ideia que feriu suscetibilidades alheias. 

De fato, ninguém é obrigado a receber influxos de ideias que não goste, podendo naturalmente retirar o emissor do seu conjunto diário de informações. Além disso, certas ideias estão na contramão de tudo aquilo que o Evangelho nos ensina, como fortes manifestações de preconceito e de intolerância. Nesse caso, “cancelamento” seria meramente um mecanismo de maior seleção de afinidades. Mas quem nos dera se parasse apenas nisso…

Notamos que o ato de cancelar se generalizou de tal modo que vem acontecendo até com fatos banais, como simplesmente dizer que não gosta de algo muito popular. Tais discordâncias não param no mero cancelamento da redes particulares, mas se convertem em verdadeiras campanhas contra a imagem das pessoas, em um exercício de julgamento público ou de “apedrejamento virtual”, afastando-as como se não fossem mais merecedoras de qualquer atenção. Quando o ato de “cancelar” transborda para esse nível, chamamos de “cultura do cancelamento”.

Cancelar é fazer Justiça?


Existe um elemento forte do nosso psiquismo associado a este fenômeno social, que é o desejo de fazer justiça. E é nesse momento que entramos em uma perigosa armadilha: quando esse desejo se converte em canal de vibrações inferiores, transformando boas intenções em exercícios de mais injustiça. Quando alguém sofre intolerância e pratica outras intolerâncias a título de se defender, cede a sintonias inferiores, como se o sofrimento fosse espécie de licença para também responder imponto sofrimento aos demais. Estamos revisitando a Lei de Talião…

Desse modo, temos primeiramente de nos alertar para a questão da sintonia e do pensamento. Que mecanismos mentais e espirituais nos levam ao exagero e ao ódio muitas vezes gratuito? O Espiritismo nos oferece uma visão privilegiada sobre esse assunto. Selecionamos pequeno trecho de Emmanuel, do cap. 26 do livro Roteiro (Ed. FEB), em que o mentor esclarece:

A mente, em qualquer plano, emite e recebe, dá e recolhe, renovando-se constantemente para o alto destino que lhe compete atingir.

(…)

De modo imperceptível, “ingerimos pensamentos”, a cada instante, projetando, em torno de nossa individualidade, as forças que acalentamos em nós mesmos. 

Por isso, quem não se habilite a conhecimentos mais altos, quem não exercite a vontade para sobrepor-se às circunstâncias de ordem inferior, padecerá, invariavelmente, a imposição do meio em que se localiza. 

(…)

Se nos confiamos às impressões alheias de enfermidade e amargura, apressadamente se nos altera o “tônus mental”, inclinando-nos à franca receptividade de moléstias indefiníveis.

Estamos assimilando correntes mentais, de maneira permanente (Emmanuel)

E, para reforçar a ideia, André Luiz registra no livro Nos Domínios da Mediunidade (cap. 13):

Imaginar é criar. 

E toda criação tem vida e movimento, ainda que ligeiros, impondo responsabilidade à consciência que a manifesta. E como a vida e o movimento se vinculam aos princípios da permuta, é indispensável analisar o que damos, a fim de ajuizar quanto àquilo que devamos receber. 

Quem apenas mentalize angústia e crime, miséria e perturbação, poderá refletir no espelho da própria alma outras imagens que não sejam as da desarmonia e do sofrimento?

Com essas lições, reflitamos: será que estamos nos deixando levar pela cultura do cancelamento, sintonizando com a satisfação em eliminar pessoas a título de fazer justiça? Parafraseando a televisão, não há nenhum problema de “votar” para eliminar do programa; parou aí, vida que segue. Ao eliminado ou cancelado haverá a tarefa de retomar sua vida. Que virtude estaremos exercitando ao permanecermos descontentes por essa pessoa, até mesmo depois de encerrado o jogo? Se estamos usando o entretenimento para extravasar angústias, temos de refletir e reavaliar nossa postura. Afinal, que tipo de pensamentos estamos emitindo ou criando? O que estamos trazendo para o dia-a-dia da nossa esfera espiritual?

Para nos ajudar ainda mais, o Evangelho de Jesus está repleto de lições para que evitemos as armadilhas desse tipo de sintonia. 

O Evangelho de Amor é a melhor saída para nossos descontentamentos

Comecemos pelo alerta do Cristo sobre o ato de julgar o próximo:

 

Não julgueis, a fim de não serdes julgados; porquanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros; empregar-se-á convosco a mesma medida de que vos tenhais servido para com os outros. (Mateus, 7:1 e 2.)

 

O Mestre alerta que o ato de julgar pode se reverter contra nós mesmos. Julgar faz parte da nossa natureza, mas se essa ação não for acompanhada de caridade, de fraternidade ou de empatia, colheremos apenas os frutos da nossa própria fúria e desarmonia. 

Ao invés de apenas temer as consequências do nosso livro arbítrio, Jesus obviamente nos ensina ir além. Por exemplo, na lição de misericórdia expressada na linda passagem do Evangelho de João sobre a mulher que seria apedrejada acusada de adultério. O que falou Jesus ao grupo de pessoas que insanamente queriam “cancelar” a mulher por meio do apedrejamento? Jesus se somou à turma? Deu licença para que isso acontecesse? Relembremos:

 

Sabemos que Jesus aproveitaria aquela cena lamentável para oferecer outra lição. E as palavras do Cristo foram poderosas: “Aquele dentre vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra.” Verdadeiro convite para que olhemos a nós mesmo antes de dirigir nosso olhar de reprovação contra o próximo. 

Jesus finaliza aquele encontro assim:

 

Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?

Ela respondeu: “Não, Senhor.” – Disse-lhe

Jesus: “Também Eu não te condenarei. Vai-te e de futuro não tornes a pecar.

(João, 8:10 a 11)

 

A passagem deixa claro que não havia motivo para tal comportamento coletivo de busca de justiça a qualquer preço e que os atos que suscitaram o quase apedrejamento, ainda que tivessem existido, deveriam ser motivo de perdão e tolerância. Novas chances para fazer diferente, para mudar, fazem parte da misericórdia Divina. Quem somos nós para proceder de forma diferente do Pai?

Justiça de Jesus superou qualquer justiça trazida por uma “onda de cancelamento”

Para finalizar, não podemos deixar de mencionar lição de Jesus que consta no Evangelho de Lucas, acerca daqueles que consideramos inimigos:

 

Se somente amardes os que vos amam, que mérito se vos reconhecerá, uma vez que as pessoas de má vida também amam os que as amam? Se o bem somente o fizerdes aos que vo-lo fazem, que mérito se vos reconhecerá, dado que o mesmo faz a gente de má vida? Se só emprestardes àqueles de quem possais esperar o mesmo favor, que mérito se vos reconhecerá, quando as pessoas de má vida se entreajudam dessa maneira, para auferir a mesma vantagem? Pelo que vos toca, amai os vossos inimigos, fazei bem a todos e auxiliai sem esperar coisa alguma. Então, muito grande será a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo, que é bom para os ingratos e até para os maus. Sede, pois, cheios de misericórdia, como cheio de misericórdia é o vosso Deus. (Lucas, 6:32 a 36.)

 

É impressionante como o ato de revisitar as lições morais do Cristo nos traz a nitidez sobre o melhor código de conduta, até mesmo na contemporaneidade! Não precisamos gostar das ideias de todos e muitas delas podem até nos ferir. Se for difícil suportar, “cancele” apenas como um ato de desligar. Dê-se um tempo. Se não for possível reinserir a pessoa nas suas redes, tudo bem. Mas que isso não seja acompanhado de pensamentos de rancor ou vingança, uma prática que está longe da Justiça que Jesus pregou. 

Este post seria infinito se abríssemos espaço para todos as possibilidades que o Mestre nos ofereceu para evitarmos nossa infelicidade no uso do livre arbítrio.

Para encerrar, vamos buscar como fonte de inspiração o Perdão para sanear a vontade às vezes tão forte de “cancelar” os outros. Com a palavra, o irmão Rossandro Klinjey:

E como o Bem (graças a Deus!) também está espalhado por todos os lugares, doutrina e crenças, fica aí uma recadinho do Dalai Lama para evitar a cultura do cancelamento:

Então? Já deu uma vontade de cancelar alguém? Que tal avaliar à luz do Evangelho e do Espiritismo de onde vem essa vontade e se isso realmente vale a pena na sua vida?

Vamos conversar mais sobre esse tema nas nossas próximas lives no sábado às 18h no YouTube com nosso podcast e no domingo às 10h pelo Google Meet com nossa Roda de conversa. Para mais informações sobre nossas lives acesse o site www.cefak.org.br nesses dias e horários para a gente estudar juntos!

O que achou do conteúdo? Gostaria de fazer algum comentário sobre o tema? Ficou com alguma dúvida? Deixe seu comentário!

8 Comments
  1. É como dissemos outrora: não faças aos outros o que não gostarias que fizessem com você. Deixemos o orgulho longe de nossos pensamentos.
    Um excelente final de semana para todos.

  2. Parabéns, adorei o texto e as conexões com os exemplos de Jesus, que, felizmente, não só não nos 'cancelou', mas investiu seu mandado Divino na passagem materializada pelo planeta e oportunizou a todos a conexão com todos, nos aceitando, independentemente do nosso estágio evolutivo, e vivificou um projeto de amor e luz.

  3. Os ensinos de Jesus são tão atuais…ou melhor dizendo, são atemporais. Roteiro seguro de conduta e atitudes na vida de todos, sem exceção. "Jesus nos ensina a ir além…" Mesmo que estejamos inseridos numa "atmosfera de cancelamento", tenhamos clareza, lucidez, vontade e ação concreta de resistir voluntariamente a esse mal e nisto há virtude.

  4. Excelente texto, especialmente para a nossa reflexão.
    Verificamos a sua aplicação tão presente nos dias atuais.
    Os ensinamentos de Jesus relacionados impulsionam maior adesão de não cancelarmos as pessoas. Temos que lutar para perdoarmos mais e aceitarmos os defeitos alheios.
    André Luiz muito contribui quando nos diz: “nossos pensamentos geram nossos atos e nossos atos geram pensamentos nos outros”
    Se tudo começa no pensamento, essa deve ser nossa luta.

  5. Vigiar os pensamentos e praticar o perdão são mesmo ótimas ferramentas para nossa evolução espiritual! 😊

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